Sofria de Alzeimer. Doença que afeta principalmente as faculdades mentais. "Ficou fora da casinha", diziam os parentes. Porém, para espanto dos mesmos, era capaz de se lembrar perfeitamente de fatos do seu tempo de rapaz, quando morava na roça. E muitas vezes se "entrega" ao contar alguma "arte" que aprontara. Também fala com certa frequência, e entusiasmo, que "amanhã vou me casar". Outra particularidade sua é a resistência ao banho. Não era fácil convencê-lo da necessidade do banho. No entanto, sua esposa achou uma maneira de "dobrá-lo": "Mas amanhã não é o dia do teu casamento"? Foi o jeito.
Outra obsessão é o seu ímpeto de fugir. Muitas vezes, quando davam por sua falta, estava vagando pelas ruas, nas proximidades. Colocaram grades e portões no muro da frente. Um dia, sem que alguém percebesse, pegou a chave, abriu o portão e saiu. Só o encontraram após duas horas de procura. A partir de então, instalaram dispositivo com controle remoto no portão grande, que dá entrada para o veículo da família. E quando o filho, que mora próximo, vem visitá-los, e se o velho se encontra perto à grade, aciona o controle escondido sob a roupa, e diz:
-Abracadabra!
O velho, um tanto admirado, fica olhando o portão que lentamente vai se inclinando. Depois que o filho entra, e fala alguma coisa ao pai, voltando-se para o portão, ordena:
-Fechacadabra!
Numa feita, quando ia embora, depois de conversar por um bom tempo com sua mãe, o pai, que permanecera junto à grade desde que o filho chegara, o interpelou:
-Reni, temos que mandar lavar os ouvidos desse portão.
-Ué, por quê?
-Eu falo "abracadabra" e ele não me ouve...